1. MENU
  2. CONTEUDO
  3. RODAPE

Tragédia de Santa Maria: Fiscalização não é rotina em GO

Por Eduardo Candido 28 Janeiro 2013 Publicado em Brasil
Votao
(1 voto)
Lido 2923 vezes

O Corpo de Bombeiros de Goiás admite: há a possibilidade de casas noturnas em funcionamento no Estado estarem com o alvará vencido, assim como no caso da Boate Kiss, palco da tragédia que matou mais de 240 pessoas em Santa Maria (RS), neste fim de semana. Segundo informa o major Claison Alencar Pereira, da Assessoria de Comunicação, a vistoria nos estabelecimentos só é realizada por solicitação dos próprios empresários ou frequentadores dos locais, que, porventura, se sintam inseguros.

“A lei estadual, desde 1982, obriga os estabelecimentos a manterem, anualmente, os seus alvarás, para continuarem funcionando regularmente. A maioria cumpre a lei, até porque não quer ficar irregular e já que a vistoria dos Bombeiros amarra uma série de outros documentos”, destaca o major. “Contudo, não posso afirmar que não haja quem não esteja em dia; é como o licenciamento obrigatório dos veículos”, acrescenta, lembrando que “as normas só valem para quem as cumpre”.

O assessor de comunicação dos Bombeiros diz que, por lei, todas as casas devem manter saída de emergência, em que as portas sejam largas, de acordo com a capacidade de público, e que abram para fora. Devem, ainda, ser dotadas de ferragens anti-pânico – que possibilitam que já se abram, sem travar. De acordo com o major Alencar, também são proibidos eventos pirotécnicos em locais fechados, bem como ultrapassar os limites da capacidade máxima do local.

Responsabilidade
“A segurança é responsabilidade do Estado, mas deve contar com a participação de todos. Os cidadãos devem estar atentos a todos esses detalhes e denunciar, chamar os bombeiros caso verifiquem que vidas estão sendo colocadas em risco”, alerta o assessor do Corpo de Bombeiros. Na avaliação dele, o incêndio em Santa Maria deve, agora, chamar a atenção de público e empresários para o tema.

“É difícil analisar a situação à distância. O que podemos afirmar, com certeza, é que acidentes como esse ocorrem, em geral, porque alguma norma de segurança foi descumprida”, argumenta o major Alencar. Ele reitera: o público que frequenta boates, restaurantes, cinemas e outros estabelecimentos da área de lazer devem manter máxima atenção e cuidado em relação a esses ambientes. “As pessoas não acreditam que desastres possam acontecer. Aí está uma prova de que podem, sim”, arremata.

Incêndio em boate deixa pelo menos 248 mortos e 123 feridos
Efeitos pirotécnicos contra um teto coberto de espuma. Uma única porta de entrada e saída, assim mesmo trancada quando tudo começou. Seguranças impedindo a fuga imediata das pessoas. Pelo menos um extintor de incêndio em pane na casa lotada, cujo plano de prevenção e controle de incêndios estava vencido desde agosto do ano passado.

Essa sequência de erros provocou, na madrugada deste domingo, o segundo maior incêndio da história do país, uma tragédia com 248 mortos e mais de 123 feridos que calou o domingo dos brasileiros. A maior tragédia brasileira foi registrada em 1961, quando 503 pessoas morreram em um incêndio no Grande Circo Brasileiro, em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro.

O fogo, iniciado no show de uma banda local, devastou em poucos minutos o futuro de centenas de jovens e suas famílias na cidade de Santa Maria (292 quilômetros de Porto Alegre), destruindo a boate Kiss, onde cerca de 1,2 mil pessoas, a maioria universitários entre 18 e 21 anos, celebravam a festa ironicamente batizada de “Agromerados”.

O cenário de horror encontrado pelos bombeiros dá a medida da tragédia, a terceira maior do mundo em boates. Pelo relato do comandante-geral da corporação em Santa Maria, coronel Guido Pedroso Melo, eles encontraram dificuldades em entrar no local por haver “uma barreira de corpos” bloqueando a passagem.

Banheiros
Parte das vítimas estava dentro dos dois banheiros da boate. Elas correram para lá, em meio ao fogo e fumaça, por acreditar que seria uma porta de saída. A maioria morreu asfixiada, empilhada até o teto. Desesperados, bombeiros e voluntários rompiam as paredes da boate a marretadas.

“Agromerados” foi organizada por estudantes de agronomia, medicina veterinária, pedagogia, zootecnia e agronegócios da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Eram 2h30 de domingo quando a banda Gurizada Fandangueira, após subir ao palco, acionou um efeito pirotécnico. Como o teto era baixo, a chama atingiu o isolamento acústico, iniciando o incêndio. O fogo alastrou rapidamente e provocou uma confusão generalizada. Todos fugiram desesperados para o mesmo local.

“Era tudo preto, a decoração, as portas, não tinha luz. Corríamos sem saber para onde. Fui instintivamente em direção ao que achei que fosse a porta. Era um labirinto, tudo cheio de curvas”, lembra Valterson Wottrich, vocalista e guitarrista da banda Pimenta e seus Comparsas.

Segurança da boate, Rodrigo Moura conta que pegou um extintor de incêndio para conter as chamas, mas o aparelho não funcionou. Na única saída, uma dificuldade a mais: com medo que as pessoas saíssem sem pagar, seguranças impediram a fuga. Só cederam depois de perceber a fumaça se alastrando.

De manhã, no Centro Desportivo Municipal, para onde foram levados os corpos, a fila de parentes atingiu cerca de 500 metros de extensão. Celulares, deixados com outros pertences junto às vítimas, tocavam insistentemente. A presidente Dilma Rousseff, que interrompeu uma visita ao Chile, esteve no local por 15 minutos e chorou ao consolar pais, amigos e parentes.

Com tantos problemas, só as investigações já abertas poderão dizer o que aconteceu na Kiss. O subcomandante da Brigada Militar, coronel Altair Cunha, disse que, embora o plano de prevenção de incêndios estivesse vencido, é normal que se permita o funcionamento quando os donos comprovam as medidas de segurança.

Fonte: O Popular/Patrícia Drummond/Agência O Globo